BrandYourself

SEUS PROBLEMAS ACABARAM! Agora você vai ter a chance de correr para apagar seus posts homofóbicos, misóginos, racistas ou aqueles caindo na noitada de tanto beber em que seus amigos te marcaram ou que você publicou porque queria demonstrar toda sua descontração em um momento com amigos, tudo isso antes que um recrutador veja e decida não te contratar. Só NÃO DÁ PARA APAGAR falta de caráter, intolerância de qualquer tipo e desrespeito ao próximo (atitudes de alguns ontem por aqui). Ou você se dispõe a mudar ou tenta na próxima encarnação.

Chegou a BrandYourself, a ferramenta revolucionária que vai coletar suas publicações nas mídias sociais e resumir sua performance em uma análise retroativa de até dez anos (10 anos!), indicando pontos a melhorar no seu desempenho social, a fim de que isso não impacte na forma como empresas e recrutadores te veem. E, claro, você não quer se queimar com aquela firma legal que tem sinuca, videogame e cervejinha no happy hour, né? É lá que todo mundo quer trabalhar, você também. E como eles são modernos e antenados, já estão usando essa potente ferramenta de análise para te julgar, ops, quero dizer, analisar sua presença social.

Brincadeiras à parte, a questão é bem séria. Para começar, aquela antiga e já desgastada pergunta: é ético que recrutadores e empregadores considerem na sua contratação aquilo que você diz ou faz nas mídias sociais? Pode ser que sim, pode ser que não. Por aqui dá para identificar, por exemplo, quando uma pessoa age de forma racista, chamando um aluno de uma instituição de escravo (1). Mas há casos também em que a leitura rápida de uma publicação de alguém, sem ser relacionada a um contexto, pode levar a erros graves, a concluir o que não é verdade. E como a gente tem essa mania estranha de sair compartilhando muita coisa sem verificar, já viu, né? Sabe onde isso sempre acaba!

Mas então quer dizer que eu não posso ser eu mesmo nas minhas redes sociais? Não posso dizer o que penso, não posso compartilhar minha opinião porque vou estar sempre sendo julgado? Sim, você pode, desde que assuma as consequências da posição em que se coloca. E, claro, desde que você saiba bem claramente a diferença entre opinião e ofensa e discurso de ódio (2).

Voltando ao maravilhoso sistema de avaliação do desempenho social, o mais grave disso tudo é que estão nos tornando engrenagens que desempenham performance – a depender do seu desempenho, você pode ganhar biscoitos ou ser penalizado (será que algum dia foi diferente? 🤔). Estamos constantemente produzindo conteúdo que se tornam dados coletados, que se tornam informações, que são usadas para nos avaliar e decidir nossas vidas. Muitas vezes decidem por nós, e a gente nem fica sabendo, né seu Zuckerberg?

Bom, para concluir, só gostaria de manifestar a necessidade que temos de vigiar, monitorar, acompanhar tudo isso que está sendo feito com nossos dados. É verdade que entramos nas mídias sociais “de grátis” e em troca entregamos nossa alma, mas está na hora de começarmos a nos posicionar a respeito. Devemos ter o direito de saber para onde vão e como são usados esses dados.
E mais: precisamos trabalhar em função de manter as pessoas no mundo como pessoas, não como perfis performáticos apenas. Nós mesmos assumimos esse lugar de “atleta da performance” quando nos deixamos avaliar por um ‘score’ de desempenho, números que nos comparam com outras pessoas (perfis), comparações entre nossos perfis, disputas por mais seguidores e audiência, fórmulas e suplementos para performar mellhor diante da concorrência etc. Vide o que acontece hoje no LinkedIn: monte de gente interessada em seguir fórmulas de sucesso na criação de publicações para obter mais alcance, porque, dizem, isso traz muitas ~ oportunidade de negócios ~ (a ver).

Porque tão assustador quanto isso tudo é pensar que esse é um serviço que vai ter demanda porque tem quem acredite que manter as aparências através da performance nas mídias sociais é suficiente para ser considerado apto a uma posição numa empresa. E há empresas e recrutadores que selecionam candidatos a partir das lindezas que esses meticulosamente publicam nas mídias sociais acreditando que eles são tudo aquilo de lindo que posam (ou no popular: gente que acha que caga bombom, mas não peida nem jujubinha).

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Recomendo a leitura de Alain Ehrenberger, o ‘Culto da Performance’, inspiração para o título desse texto.

Resenha na Amazon: A arte de empreender, de assumir riscos e ser obstinado está ligada à convergência dos discursos esportivo, empresarial e de consumo. Estes são apresentados pelo sociólogo francês Alain Ehrenberg em O culto da performance. O autor explica o papel de cada um deles para a excelência na atuação, ou seja, no desempenho em público. Para o sociólogo, todos têm o direito e o dever de serem empreendedores, de se formarem por conta própria por meio do seu desempenho. Além de esmiuçar as características dessa nova tendência, Ehrenberg alerta o leitor sobre as dolorosas consequências desse regime obstinado de excelência.

BrandYourself na Fast Company: http://bit.ly/2FRcvrh