Já faz quatro anos desde que um estudo realizado pelo Facebook, em conjunto com pesquisadores de Cornell e da Universidade da Califórnia, veio a público revelando que aquela rede social havia manipulado o feed de quase setecentos mil usuários “to improve our services and to make the content people see on Facebook as relevant and engaging as possible” (para melhorar nossos serviços e fazer com que o conteúdo visto pelas pessoas no Facebook seja o mais relevante e envolvente possível – tradução minha), segundo uma porta-voz da empresa que falou ao The Guardian à época. E não duvide de que, mesmo tendo recebido muitas críticas, o Facebook tenha insistido em novas pesquisas do tipo nos anos seguintes. Com mais de dois bilhões de usuários hoje, o Facebook é dono de uma enorme quantidade de informações sobre nossas vidas e, ao mesmo tempo, a única empresa autorizada a fazer pesquisas com essa enorme massa de dados – ainda que tenha anunciado, no início desse ano, parceria para permitir que pesquisadores acessem sua plataforma a fim de entender o impacto das mídias sociais sobre as eleições e também para combater fake news.

Fato é que aquele experimento revelado em 2014 demonstrou como o Facebook pode ser capaz de promover a manipulação de emoções de seus bilhões de usuários através do que os pesquisadores chamaram de ‘contágio emocional’. O estudo concluiu: “emotions expressed by friends, via online social networks, influence our own moods, constituting, to our knowledge, the first experimental evidence for massive-scale emotional contagion via social networks” (emoções expressas pelos amigos, através das redes sociais online, influenciam o nosso humor, constituindo, de acordo com nossos resultados, a primeira evidência experimental de contágio emocional em grande escala através das redes sociais – tradução minha). Sem consentimento dos informantes sobre participar da pesquisa, o Facebook manipulou as publicações vistas por esses milhares de usuários e constatou que quando reduzia a quantidade de publicações com sentimento positivo que fazia chegar para eles no feed, aumentava a quantidade de posts com sentimento negativo publicado pelos participantes do experimento. E vice-versa. E, não, os termos de uso não dão ao Facebook o direito de realizar pesquisas com seus usuários, pois, de acordo com o professor de Direito James Grimmelmann, da Maryland University, o consentimento dos participantes de uma pesquisa é uma obrigação conforme a lei federal americana, já que devem ser explicados previamente os propósitos da pesquisa, o tempo de duração da participação deles e uma descrição de possíveis riscos previstos.

Mas por que isso deveria nos preocupar? Além dos fatos mais óbvios para justificar essa preocupação, como a manipulação de conteúdo com viés para promover opiniões favoráveis a um político ou partido, como as eleições americanas mostraram, há também uma relação de vício, dependência, estresse e até ansiedade e depressão em consequência do uso que algumas pessoas fazem das redes sociais – ou da forma como são estimuladas a fazer uso delas. Uma pesquisa concluiu que o Instagram é a pior rede social para a saúde mental e uma publicação americana fez um fact-check para avaliar, com especialistas e pesquisadores, os impactos positivos e negativos sobre nossas emoções e bem-estar em relação ao uso que fazemos das redes sociais. Claro, há consequências positivas, sim, do uso das redes, como nos casos em que as pessoas encontram, principalmente em grupos, comunidades e canais de vídeo, suporte para lidar com doenças e outros problemas interagindo e trocando informações com outras pessoas na mesma situação. . Porém, há dois fatores sobre os quais precisamos dedicar mais atenção.

O primeiro deles é uma cobrança excessiva para se apresentar online: onde está, com quem está, fazendo o que, como está se divertindo, o que está bebendo, o que está comendo, como está sendo sua viagem – a todo instante muitas pessoas parecem sentirem-se obrigadas a compartilhar informações sobre todos os seus passos. Ter o que contar a todo tempo em fotos, vídeos, live, stories é condição sine qua non (indispensável, essencial) para ser lembrado¹. E quem não o faz é porque provavelmente não está feliz, não está vivendo, não “aproveita a vida”, como disse certa vez uma jovem com quem eu conversava sobre o assunto. Até mesmo no Linkedin a pressão para dizer alguma coisa – ou produzir conteúdo, como alguns preferem dizer – é enorme. Hoje mesmo li uma publicação de um executivo que disse que recebeu centenas de currículos para uma vaga que anunciou, mas que ao analisar alguns perfis notou que eles não produzem conteúdo no Linkedin, não compartilham suas experiências em histórias, não têm o que mostrar. Para ele, isso é claro sinal de falta de competência na gestão das carreiras desses candidatos, já que a produção de conteúdo no Linkedin, ainda segundo ele, ajudaria a construir reputação, autoridade, influência e a demonstrar competência na área de atuação daquela pessoa. Você já pensou que uma pessoa pode construir essa reputação através do que escreve e na real, na real ser tudo mentira? Foi o que fez o Hamilton Henrique, que durante quatro anos saiu país afora se apresentando como empreendedor social e chegou a participar de TEDx, deu entrevistas para Globo Repórter, foi ao programa da Fátima Bernardes, foi matéria da Revista da Gol, entre outras muitas vezes em que esteve na mídia. Mas não era nada daquilo que ele dizia por aí, segundo apurou a Agência Pública. Será mesmo que falar, falar, falar aqui no Linkedin é indicativo de competência? Será que compartilhar nos stories tudo o que você faz – do bom dia ao seu almoço, passando pela academia, os drinks no sábado à noite, o almoço lindo com a família no domingo e o pretenso livro que você estaria lendo antes de dormir – seriam mesmo sinais de que você tem uma vida mais feliz que a de outras pessoas?

O segundo fator é esse que está relacionado com as consequências e as conclusões a que chegaram os pesquisadores com o experimento no Facebook: você pode estar sendo manipulado. É óbvio que o Facebook e o Instagram querem que você permaneça o máximo de tempo rolando o scroll no feed e vendo vídeos, fotos e stories dos seus amigos e conhecidos, afinal de contas, as horas que gastamos ali servem para justificar para os anunciantes (marcas, negócios, organizações) por que eles devem investir nessas plataformas. E quanto mais feliz e envolvido você estiver, mais provavelmente vai compartilhar. E quanto mais compartilhar, mais sua atenção será exigida nas interações com seus amigos, fãs e seguidores. E quanto mais tempo você passar dedicando atenção a essas interações, maior a probabilidade de você ser impactado pelas histórias das marcas que também participam dessas redes com seus canais. E quanto mais marcas te impactam com suas histórias, maiores são as chances de você clicar e ser direcionado para consumir conteúdo ou até comprar – algumas vezes mesmo que você não precise daquilo que compra.

Tem quem me veja como pessimista, mas eu prefiro acreditar que faço parte dos desconfiados. Vejo com muita desconfiança todos esses ditos “benefícios” que as redes sociais estariam nos proporcionando. Acredito que na posição que ocupo hoje, como profissional e como pesquisador, meu papel é questionar esse status quo e contribuir para que possamos compreender melhor essas engrenagens das redes e as formas como elas se apropriam de nossos dados, nossas informações, nossos deslocamentos nas ruas, nas cidades etc. Acredito também que há coisas fantásticas que podem ser feitas através das redes, como quando nos mobilizamos por causas e pessoas ou quando ajudamos a levar informação e conhecimento através do conteúdo que podemos compartilhar para ajudar a formar pessoas, promover a educação, esclarecer dúvidas, facilitar processos, entender burocracias, encontrar ajuda para situações do dia a dia, entre tantas outras maravilhas. Nosso papel enquanto cidadãos nesse momento deve ser sempre o de críticos, interessados em saber para onde vão nossos dados, o que pode ser feito com nossas informações, quais são os riscos que o uso das redes sociais pode nos trazer. Enquanto isso, muitas dessas plataformas de mídias sociais, que são empresas, são negócios, querem mesmo é que nos tornemos alienados e viciados que passam todo o tempo compartilhando nossas intimidades, ao mesmo tempo em que consumimos as intimidades dos outros, e elas aprendem com nossos comportamentos para nos manipular para o consumo através das nossas emoções, sentimentos e opiniões. Resistamos!

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¹ Não é correto generalizar comportamentos como esses como se eles fossem idênticos em todos os lugares no mundo. Daniel Miller e a equipe da UCL provaram algumas diferenças em suas pesquisas etnográficas em diversos países nos últimos anos, e o próprio Miller já havia tratado dessas diferenças em Tales from Facebook (2011). Nesse texto estou apenas explicitando alguns comportamentos mais frequentes, vistos entre usuários das redes aqui no Brasil.